Editorial BIOINFO #05: perspectivas sobre o uso de inteligência artificial na escrita acadêmica

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Nesta quinta edição da revista BIOINFO, apresentamos 25 artigos assinados por 98 autores, além deste editorial. Um dos temas centrais discutidos aqui é o desafio de integrar ferramentas de inteligência artificial (IA) generativas ao contexto acadêmico. Tecnologias como ChatGPT, Gemini e Copilot vêm provocando transformações significativas na produção científica e na sociedade, ampliando possibilidades, mas também exigindo reflexão ética e metodológica. Diante desse cenário, este editorial defende que tais ferramentas sejam incorporadas à escrita acadêmica com critério e responsabilidade. Na revista BIOINFO, seu uso é permitido apenas como suporte complementar, como por exemplo, para revisão ortográfica, gramatical e estilística. 

Autor: Diego Mariano

Introdução

A quinta edição da revista BIOINFO, publicada em dezembro de 2025, reúne 25 artigos e um editorial, assinados por 98 autores. Esta publicação contou com o apoio do evento “Bioinformática 2035: Desafios e Formação de Talentos para a Próxima Década”, promovido pelo Programa Interunidades de Pós-Graduação em Bioinformática da UFMG.

O evento solicitou que os estudantes apresentassem suas linhas de pesquisa, sem aprofundar os resultados, de modo a valorizar a exposição das propostas e das direções científicas. Os trabalhos submetidos foram avaliados pelo comitê editorial da BIOINFO, que selecionou aqueles destinados à apresentação no evento e à publicação nesta edição. Ao todo, 70 trabalhos foram submetidos, o que representa o maior número de envios desde o início da revista em 2021. Devido ao volume e às limitações editoriais, optou-se por dividir o material em duas edições: a presente e uma segunda, a ser publicada em fevereiro de 2026, dedicada exclusivamente a trabalhos escritos por estudantes do programa de pós-graduação da UFMG.

Desafios desta edição

O editorial das edições passadas apresentava resultados de pesquisa com o público [1] ou apenas uma descrição dos artigos publicados [2,3,4]. Em todas essas edições prévias, uma das principais preocupações do comitê editorial era a identificação de plágio acadêmico e a garantia de integridade na produção dos manuscritos. Entretanto, a presente edição se depara com um desafio qualitativamente diferente: o avanço e a popularização dos modelos generativos de inteligência artificial (IA) e seus impactos na escrita científica.

As ferramentas de IA generativa utilizam modelos de linguagem de larga escala para produzir textos completos a partir de instruções simples. Soluções como ChatGPT, Gemini e Copilot demonstram capacidade de redigir resumos, seções metodológicas, revisões bibliográficas e até artigos inteiros a partir de uma única solicitação. Embora esses modelos sejam suscetíveis ao fenômeno da alucinação, no qual respostas imprecisas ou inventadas são apresentadas como confiáveis, é inegável que, na maior parte dos casos, geram textos coerentes, fluentes e estruturalmente adequados ao contexto acadêmico.

Esse cenário nos levou a um questionamento inevitável: qual é, hoje, o papel de uma revista de divulgação científica? A BIOINFO foi criada, entre outros motivos, pela escassez de materiais introdutórios de bioinformática em língua portuguesa. No entanto, os modelos generativos permitem que estudantes e pesquisadores obtenham respostas imediatas em seu idioma nativo, muitas vezes com qualidade satisfatória para estudos preliminares. Se antes a lacuna de conteúdo justificava a existência de revistas como a nossa, agora surgem novos dilemas editoriais e éticos que não podem ser ignorados.

Diante disso, esta edição propõe as seguintes reflexões:

  • Uma IA pode ser considerada autora?

  • Até que ponto seu uso é aceitável como suporte à redação de artigos?

  • Ferramentas generativas podem participar da escrita sem comprometer a originalidade e a autoria?

  • De que maneira editores e avaliadores podem identificar contribuições excessivas de IA?

  • Ainda é necessário preservar a escrita humana como eixo central da produção científica?

  • Ainda há espaço para uma revista de divulgação científica?

Problemas nos textos de IA generativa

Entretanto, textos gerados por IA generativa apresentam problemas característicos. O mais crítico é o fenômeno das alucinações, em que o modelo produz informações falsas com aparência de veracidade. Para ilustrar, o autor deste editorial, em 2023, movido pela curiosidade sobre o conhecimento da IA a seu respeito, perguntou ao ChatGPT: “Quem é Diego Mariano?”. Sem possuir dados adequados para responder, o modelo afirmou que se tratava de um professor de filosofia da Universidade Federal de Uberlândia – uma afirmação incorreta, já que não há nenhum docente com esse nome atuando na federal de Uberlândia. Esse exemplo demonstra como a IA pode produzir respostas convincentes, porém equivocadas.

Outros problemas, embora menos graves, também permitem identificar facilmente um texto gerado por IA. Um deles é a redundância: modelos generativos tendem a empregar excesso de palavras para explicar conceitos simples, produzindo trechos mais longos e repetitivos do que o necessário. Além disso, observa-se a influência involuntária de padrões gramaticais de outros idiomas, especialmente do inglês. Um caso frequente é o uso de letra maiúscula após dois-pontos em listas ou títulos, prática comum no inglês, mas inadequada segundo a norma padrão da língua portuguesa. Por exemplo, a IA provavelmente escreveria o título deste editorial como “Editorial BIOINFO #05: Perspectivas sobre o uso de inteligência artificial na escrita acadêmica”, iniciando o segmento pós-dois-pontos com maiúscula. Embora modelos como o ChatGPT frequentemente justifiquem essa escolha como um “estilo pessoal”, eles mesmos admitem que, do ponto de vista gramatical, a forma não está alinhada às convenções do português brasileiro.

Por fim, solicitei que uma IA generativa revisasse a seção anterior. O resultado trouxe contribuições relevantes: entre as sugestões, o modelo recomendou, na descrição das ferramentas generativas, substituir a frase “[…] retornam respostas precisas, bem redigidas e adequadas ao contexto acadêmico” por “[…] geram textos coerentes, fluentes e estruturalmente adequados ao contexto acadêmico”. A alteração preserva o sentido original, aprimora a escolha de palavras e torna a construção mais elegante. O modelo também sugeriu organizar as perguntas (que estavam em um mesmo parágrafo) em formato de lista, o que de fato favoreceu a clareza e a legibilidade do texto. Entretanto, nessa mesma revisão, o modelo generativo inseriu um parágrafo extra após as questões levantadas:

Essas questões não resultam apenas de mudanças tecnológicas, mas de transformações culturais e epistemológicas associadas à produção do conhecimento. Cabe às revistas científicas, incluindo a BIOINFO, atualizar suas políticas editoriais, estabelecer limites claros para o uso de IA e promover uma discussão responsável sobre seu papel na comunicação científica. Assim, compreendemos que há, sim, espaço para uma revista de divulgação científica; porém, esse espaço deve ser continuamente reconstruído à luz das novas práticas de escrita, avaliação e aprendizagem impulsionadas pela inteligência artificial.

Fonte: texto gerado usando ChatGPT (não sei se faz sentido incluir a IA como fonte).

 

Apesar do parágrafo estar condizente com o texto, não era intenção do autor responder a essas perguntas, afinal, não são perguntas fáceis de responder (muito menos usar a palavra “epistemológicas” na resposta). Neste caso, a IA tentou tomar o papel do autor e sugerir políticas que deveriam ser adotadas. Esse comportamento evidencia que, mesmo quando oferece boas contribuições estilísticas, a IA pode alterar intencionalidade, tom e estrutura do texto sem que o autor perceba. Logo, deve-se tomar cuidado mesmo ao requisitar revisões gramaticais.

Como identificar textos de IA generativa

Um dos mais graves problemas do texto gerado por IA é a dificuldade de identificá-lo. Em muitos casos, não é simples distinguir um texto produzido integralmente por um modelo generativo daquele escrito por um autor humano experiente. Existem ferramentas que afirmam ser capazes de diferenciar essas duas situações, mas, na prática, muitas apresentam taxas de erro elevadas. Por exemplo, ao inserir um texto humano revisado apenas com correções gramaticais automáticas (vírgulas e tempos verbais), alguns detectores classificam o material como gerado por IA. Em outro cenário, ao adicionar intencionalmente erros gramaticais em um texto produzido por IA, a mesma ferramenta pode interpretá-lo como trabalho humano. Em síntese, não há método confiável que detecte com precisão se um texto foi escrito por humanos ou por uma IA generativa. Ainda assim, existem sinais que podem levantar suspeitas ou indicar padrões típicos dessa tecnologia, como por exemplo:

·  Informações incorretas: descrições imprecisas no texto podem ser sinal de alucinação em texto gerado por IA.

·  Uso excessivo de recursos gramaticais pouco utilizados, como por exemplo, travessão (—). É comum que usuários confundam o uso de hífen (-), traço (–) e travessão (—). Isso ocorre devido à dificuldade de incorporar esses símbolos. No Windows, pode-se usar Alt + 0150 para traço e Alt + 0151 para travessão (alguns editores costumam alterar automaticamente – para –). No macOS, para incorporar um traço, deve-se usar as teclas “option + -“. Para incorporar o travessão, deve-se usar “option + shift + -“.  Entretanto, as ferramentas de IA utilizam preferencialmente o travessão.

·  Uso de regras gramaticais de outros idiomas (inglês), como por exemplo, letras maiúsculas após o símbolo de dois-pontos.

·  Uso de algumas palavras específicas. Por exemplo, palavras como aprofundar (delves, em inglês) passaram a aparecer mais de 25x em comparação a artigos publicados antes da ascensão das IA generativas (antes de 2023). Outros exemplos incluem as palavras exibindo (showcasing), ressaltar (underscore), potencial (potential), descobertas (findings), crucial (que em inglês é a mesma coisa), dentre outras [5,6]. Entretanto, o fato dessas palavras serem usadas mais em textos não faz com que os autores passem também a usá-las mais?

·  Textos longos e repetitivos. Muitas vezes a IA repete a mesma informação várias vezes usando palavras e expressões diferentes.

·  Quantidade de submissões. Autores que submetem muitos artigos sobre temas diversos podem estar utilizando ferramentas generativas para acelerar o processo de escrita.

·  Histórico acadêmico dos autores: publicações prévias do autor principal ou do último autor podem ser um fator crucial. Autores experientes e com trajetória consolidada na área tendem a não depender de modelos generativos para estruturar seus textos. A participação de um orientador ou de um coautor mais experiente também costuma indicar revisão técnica e ética antes da submissão.

 

Apesar dessas estratégias oferecerem pistas, nenhuma delas é conclusiva. A verificação autoral continua sendo um desafio editorial importante. Também é preciso cautela: critérios baseados no histórico de publicações podem prejudicar novos pesquisadores, especialmente estudantes iniciando sua trajetória científica. Uma solução possível é incentivar parcerias com coautores capazes de contribuir de maneira ética e responsável para o desenvolvimento do manuscrito, afinal, a colaboração é parte fundamental do processo científico.

Como a IA deve ser incorporada na escrita acadêmica?

Se um texto é bom e o assunto te interessa, então vale a pena ser lido, independentemente de quem o escreveu. Entretanto, é ético que um ser humano receba o crédito caso ele tenha sido escrito por uma IA? Do ponto de vista ético, acredito que não! Da mesma forma, não faz sentido registrar como produção científica, com identificadores formais como DOI, um texto cuja contribuição autoral se resumiu a formular uma pergunta e aceitar a resposta gerada por um modelo. Fazer uma pergunta certa para uma IA e registrar a resposta como um manuscrito publicado em seu nome não é um critério válido para contribuição na publicação de um artigo.

Contudo, isso não significa que as ferramentas de IA devem ser descartadas. Pelo contrário: seu uso pode ser legítimo e construtivo quando integrado ao processo de escrita de forma responsável. Ferramentas de IA são bem-vindas no processo de revisão ortográfica e gramatical de um texto. Podem ser utilizadas para sugerir sinônimos, para evitar palavras repetidas, na correção de tempos verbais, na inclusão de vírgulas e de conectores de frases. Elas também podem ser utilizadas nas etapas de sugestão de assuntos a serem abordados no texto, de exemplos, de referências bibliográficas e na sumarização do texto. Quando usei uma ferramenta de IA para verificar a legibilidade deste texto, ela cortou muito do que eu havia escrito – inclusive recomendou substituir a expressão “encher linguiça”, que utilizei para descrever a prática de escrever muito apenas para ocupar espaço, pelas expressões “enrolar”,  “preencher espaço com embromação” ou simplesmente sugeriu “remover expressões coloquiais” (como visto, não é necessário aceitar todas as sugestões feitas pela IA).

Ferramentas de IA são fantásticas para achar erros gramaticais ou identificar frases que humanos podem ter dificuldade em compreender. Uma ferramenta de IA pode ser usada para melhorar a legibilidade de uma frase. Entretanto, o fator humano nunca deve ser retirado. É o autor que deve definir os assuntos abordados no texto. Em resumo, não se deve copiar e colar a resposta de uma IA em um manuscrito sem que o autor tenha total compreensão do que está ali, as confirme em uma fonte externa da literatura e, preferencialmente, às escreva com suas próprias palavras (apesar de que a IA possa ser usada posteriormente para revisar a redação do texto).

A tabela 1 apresenta alguns exemplos de prompts (questões) que podem ser usados em ferramentas de IA e geram saídas permitidas na escrita acadêmica, conforme os protocolos da revista BIOINFO.

Tabela 1. Exemplos de prompts para IAs considerados aceitáveis e inaceitáveis em publicações da revista BIOINFO.

Permitido

Não permitido

Prompt: realize uma revisão gramatical sobre este texto sobre proteínas: “Proteínas são macromoléculas compostas por subunidades denominadas como aminoácidos, que podem ser de 20 tipos”.

Motivo: você utilizou a IA para revisar um texto escrito por você. Por exemplo, neste caso, uma ferramenta de revisão baseada em IA sugeriu remover a palavra “como” antes de “aminoácidos”.

Prompt: escreva um texto sobre proteínas.

Motivo: você está usando a IA em modo generativo. Isso não é permitido.

Prompt: me dê exemplos de proteínas usadas na produção de biocombustíveis e seus respectivos códigos de acesso PDB.

Motivo: você usará o código para pesquisar mais na base de dados.

Prompt: liste proteínas usadas na produção de biocombustíveis e gere uma figura sobre cada.

Motivo: você usou a IA para gerar o conteúdo.

Prompt: desenhe um fluxograma com os seguintes textos inseridos em caixas: Introdução => Materiais e métodos => Resultados => Conclusão. Eles devem ser interligados por setas.

Motivo: você especificou exatamente como a imagem deveria ser construída. Neste caso, você está usando a IA como ferramenta auxiliar para desenvolver uma ideia sua.

Prompt: desenhe um fluxograma que explique o artigo.

Motivo: você não especificou como o fluxograma deveria ser construído e nem especificou o conteúdo a ser incluído.

 

Em resumo, não é autorizada a geração automática de trechos substantivos de manuscritos, nem a produção integral de textos por IA. Assim, estabelecemos que submissões redigidas exclusivamente por meio de ferramentas generativas não serão aceitas para publicação. Considera-se uso proibido a geração de trechos inéditos que introduzem conceitos, resultados, discussões ou conclusões. O uso permitido limita-se à revisão ortográfica, à reescrita por clareza e às sugestões de estilo.

Conclusões e perspectivas

As ferramentas de IA já fazem parte da realidade da escrita científica e não podem ser ignoradas. No entanto, seu uso deve seguir princípios éticos e transparentes, assegurando que o trabalho intelectual humano permaneça no centro do processo. Textos inteiros produzidos por IA generativa podem ser úteis para fins de consulta, estudo ou divulgação preliminar de informações, mas não devem ser publicados como de autoria humana nem receber identificadores formais, como DOI. É importante ressaltar que cada caso é avaliado individualmente. O comitê editorial da revista BIOINFO entende que a IA pode ser empregada de maneira legítima em tarefas de revisão textual, correção gramatical, redução de redundâncias e outras atividades repetitivas, contribuindo para maior clareza e qualidade do manuscrito final. Entretanto, decisões conceituais, argumentativas e interpretativas devem sempre permanecer sob responsabilidade dos autores. Recomenda-se, ainda, que os autores incluam, ao término do manuscrito, uma declaração de transparência, informando quais ferramentas de IA foram utilizadas e em quais etapas do processo, reforçando o compromisso com a integridade acadêmica.

 

Nota de transparência em relação ao uso de IA

Este artigo foi revisado usando as seguintes ferramentas de IA: Grammarly, LanguageTool e ChatGPT.

 

Referências

[1] Mariano, Diego. Editorial – BIOINFO #01. In: BIOINFO – Revista Brasileira de Bioinformática. Ed. 1. Julho, 2021. doi: 10.51780/978-6-599-275326-00

[2] Bastos, Luana Luiza. Editorial – BIOINFO #02. In: BIOINFO – Revista Brasileira de Bioinformática. Ed. 2. 2022. doi: 10.51780/978-65-992753-5-7-00

[3] Mariano, DCB. Editorial – BIOINFO #03. BIOINFO. ISSN: 2764-8273. Ed. 3. p.00 (2023). doi: 10.51780/bioinfo-03-00

[4] LIMA, A.; MARIANO, D. Editorial – BIOINFO #04. BIOINFO, 4 ed., 2024. doi: 10.51780/bioinfo-04-00

[5] Pereira, Caio César. Essas palavras em inglês revelam se o texto foi gerado por uma IA. Revista Superinteressante. Editoral Abril. 13 jul 2024. Disponível em https://super.abril.com.br/tecnologia/essas-palavras-em-ingles-revelam-se-o-texto-foi-gerado-por-uma-ia/.

[6] Kobak, Dmitry, et al. Delving into LLM-Assisted Writing in Biomedical Publications Through Excess Vocabulary. 2024. arXiv:2406.07016, https://arxiv.org/abs/2406.07016

 

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Editor-chefe do Portal BIOINFO. Mantido pelo comitê editorial, equipe administrativa e técnica.

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