Influência de variáveis climáticas na dinâmica vetorial de arboviroses no Brasil

131
0

As arboviroses, como dengue, zika, febre amarela e chikungunya, representam desafios significativos à saúde pública e são transmitidas principalmente por mosquitos do gênero Aedes, com destaque para Aedes aegypti e Aedes albopictus. A relação entre o clima e a proliferação desses vetores, influencia diretamente a ocorrência de surtos em diversas regiões. A análise de variáveis como temperatura e umidade revela como condições ambientais favorecem o ciclo de vida dos mosquitos e a disseminação viral. O A. aegypti predomina em áreas urbanas tropicais, enquanto o A. albopictus se adapta a climas mais variados, incluindo regiões temperadas. No Brasil, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) fornece dados essenciais por meio de sua rede de estações meteorológicas para monitorar esses fatores, auxiliando na análise de padrões climáticos associados a surtos. Evidências recentes mostraram que mudanças climáticas amplificam o risco de doenças causadas por mosquitos, especialmente em contextos de alta densidade populacional. A biologia e o comportamento  desses vetores propõe uma reflexão sobre a importância do monitoramento  epidemiológico para antecipar surtos, destacando a relevância de estratégias preventivas baseadas em observações ambientais.

Fernanda Elen Silva dos Santos1, Ronison Alves Guimarães1, Vagner Fonseca2, Joicymara Santos Xavier1,3

1. Introdução

As arboviroses são doenças virais transmitidas por artrópodes, sendo os mosquitos e carrapatos seus principais vetores. Mosquitos do gênero Aedes, como Aedes aegypti e Aedes albopictus, são responsáveis pela disseminação dos vírus da dengue, zika, febre amarela e chikungunya. Esses mosquitos prosperam em condições ambientais específicas, e  as mudanças climáticas têm ampliado suas áreas de atuação. Estudos indicam que fatores como alterações climáticas, crescimento populacional, mobilidade humana e urbanização agravaram a  carga da dengue, tanto  pelo risco de infecção em áreas endêmicas quanto pela expansão do alcance do vetor primário para novas áreas [1]. Entender a dinâmica de transmissão de doenças correlacionadas com  mudanças climáticas é  essencial para a proteção da saúde pública, especialmente em um cenário de crescente vulnerabilidade ambiental.

2.  Biologia e Distribuição dos vetores Aedes aegypti e Aedes albopictus

O Aedes aegypti foi descrito originalmente no Egito, e acompanhou o homem em sua longa migração pelo mundo. É considerado um mosquito cosmopolita, com ocorrência nas regiões tropicais e subtropicais. Sua introdução no Brasil ocorreu durante o período colonial, provavelmente na época do tráfego de escravos [2]. Os mosquitos dessa espécie são  adaptados à vida urbana, mas também são encontrados em áreas rurais [2]. Em relação à sua  biologia, os criadouros do A. aegypti incluem recipientes artificiais, como latas e pneus, embora também possam ser encontradas larvas em plantas como bromélias ou em cavidades de árvores. Sua distribuição concentra-se em regiões quentes, onde a temperatura ideal (25-30°C) acelera seu desenvolvimento [2]. Outro mosquito de importância sanitária é o Aedes albopictus, também vetor de arboviroses, como dengue e febre amarela [2]. Descrito originalmente na Índia, destaca-se pela versatilidade, pois resiste a climas mais frios e se estabelece em áreas periurbanas e rurais. Essa espécie chegou à Europa e às Américas por meio de comércio internacional, especialmente pelo transporte de pneus usados[2]. No Brasil, sua introdução ocorreu em maio de 1986, nos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro[2]. Supõe-se que tenha entrado no país através de portos do Espírito Santo e se interiorizado, via estrada de ferro, no vale do rio Doce (transporte de minério de ferro) [2,3].

2.1 Influência do Clima nos Surtos, INMET e a Bioinformática

O clima desempenha um papel crucial na proliferação de mosquitos do gênero Aedes. Temperaturas elevadas reduzem o tempo de incubação viral no vetor, enquanto chuvas intensas favorecem a formação de criadouros [1,2]. Além disso, a umidade relativa influencia a sobrevivência dos ovos, especialmente do A. albopictus, capaz de hibernar em condições adversas [3]. No Brasil, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) desempenha papel fundamental nesse contexto, com medições contínuas de temperatura, umidade, precipitação e outras variáveis desde 1961 [4]. O banco de dados meteorológicos do INMET disponibiliza séries históricas diárias que possibilitam análises detalhadas dos padrões climáticos relacionados à dinâmica dos vetores e aos surtos de arboviroses. Variáveis como temperatura máxima e mínima, umidade relativa e precipitação são essenciais para compreender a influência do clima na dinâmica vetorial. Cruzando esses dados meteorológicos com registros entomológicos espaciais e temporais, é possível analisar a predominância e o deslocamento dos mosquitos vetores em função das condições climáticas, contribuindo assim para um melhor entendimento dos fatores ambientais que afetam a transmissão de doenças transmitidas por mosquitos.

A bioinformática oferece uma abordagem interessante para o monitoramento dessas doenças, possibilitando a correlação entre  variáveis climáticas e dados de localização dos vetores e, posteriormente, o uso de algoritmos de inteligência artificial para prever possíveis surtos. Um exemplo concreto dessa abordagem é o estudo de Heath et al. (2025) [5] que combinou modelos matemáticos e algoritmos de aprendizado de máquina para correlacionar dados climáticos, urbanos e populacionais, utilizando tanto séries temporais quanto dados geoespaciais, conseguindo prever áreas e períodos de maior risco para o Aedes aegypti e transmissão de arboviroses no Brasil.

A  integração desses dados podem auxiliar na mitigação dos impactos das arboviroses, especialmente em áreas mais vulneráveis. Modelos de aprendizado de máquina podem ser uma alternativa  eficiente para identificar padrões espaciais relevantes. Os dados climáticos e entomológicos podem ser implementados usando algoritmos de Machine Learning como Random Forest e Gradient Boosting, para analisar os padrões nos dados coletados. Esses modelos permitirão prever a disseminação de arbovírus com base nas variáveis climáticas e epidemiológicas, ajudando na identificação precoce de surtos. Além disso, ferramentas de monitoramento como dashboards interativos, oferecem suporte visual à vigilância sanitária e ajudam na disseminação de informações, facilitando ações coordenadas e mais precisas na contenção das arboviroses.

A imagem abaixo é uma representação das estações meteorológicas do INMET em todo território brasileiro: 

Figura 1. Estações meteorológicas do INMET no Brasil. Fonte: Instituto Nacional de Meteorologia – 2025. Os círculos verdes indicam as estações automáticas, ou seja, representam estações meteorológicas automatizadas, que medem e registram variáveis como temperatura, umidade, precipitação e vento continuamente, sem intervenção humana direta. Os pontos azuis indicam estações meteorológicas tradicionais, normalmente operadas manualmente, responsáveis por observações diárias feitas por profissionais capacitados, com medições como chuva, temperatura e vento. Além de possuir estações meteorológicas em áreas terrestres, o INMET também mantém estações em pontos estratégicos, como ilhas oceânicas e regiões litorâneas. Como se pode observar, os pontos deslocados à direita representam as estações Fernando de Noronha – PE e Ilha de Trindade – RJ. Os pontos em lilás correspondem aos pluviômetros que são dispositivos automáticos dedicados exclusivamente à medição da quantidade de chuva, registrando os dados em tempo real para monitoramento contínuo.​

3. Conclusão

A relação entre clima, os mosquitos Aedes e arboviroses evidencia a necessidade de atenção contínua às variáveis ambientais, com o suporte de instituições como o INMET para a obtenção de dados precisos de monitoramento. A compreensão de como o aumento da temperatura, a precipitação e as chuvas intensas influenciam a disseminação dessas doenças permite antecipar riscos e planejar ações preventivas [5]. Essa abordagem não apenas enriquece o conhecimento científico, mas também oferece suporte prático para a proteção das comunidades afetadas. Investir em monitoramento e educação, representa um caminho essencial para reduzir os impactos dessas doenças a curto e longo prazo. Entretanto existem limitações, principalmente pela variabilidade regional dos fatores socioambientais. Ademais, os dados do INMET podem cobrir apenas certas regiões do Brasil, e as dinâmicas dos vetores podem variar em locais com diferentes padrões de urbanização, saneamento e clima.

Agradecimentos. Os autores agradecem às agências de fomento: CNPq pelo apoio financeiro, ao Projeto NAVIO e a Rede Saúde Única pela colaboração e ao Programa de Pós-Graduação em Bioinformática da UFMG.

4. Referências

[1] O’Neill SL, et al. New solutions against the dengue global threat: opportunities for Wolbachia interventions. Trends Parasitol. ISSN: 1471-4922. Vol. 41. p. 35013 (2025). doi: 10.1016/j.ijid.2025.107923

[2] Consoli, R. A. G. B., & Oliveira, R. L. (1994). Principais mosquitos de importância sanitária no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. 228 p. ISBN: 85-85676-03-5.)

[3] Caminade C, et al. A climate and population dependent diffusion model forecasts the spread of Aedes albopictus mosquitoes in Europe. Commun. Earth Environ. ISSN: 2662-4435. Vol. 6. Art. 2199 (2025). doi: https://doi.org/10.1038/s43247-025-02199-z

[4] Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Banco de Dados Meteorológicos para Fins Exclusivos de Pesquisa (BDMEP). Disponível em: https://bdmep.inmet.gov.br/ (2025)

[5] Heath K, Muniz Alves L, Bonsall MB. Climate change, urbanisation and transmission potential: Aedes aegypti mosquito projections forecast future arboviral disease hotspots in Brazil. PLOS Neglected Tropical Diseases. 2025 Sep 18;19(9):e0013415. doi: https://doi.org/10.1371/journal.pntd.0013415

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *